Franz Rosenzweig: Revelação, mitologia e mística

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Franz Rosenzweig: Revelação, mitologia e mística

A teologia da antigüidade, orientada pelo mito, já caíra em uma insatisfação que ansiava por se mover para além da esfera auto-satisfeita do mito e que parecia exigir a reversão do que era simplesmente vivo em fonte da vida. Mas, com relação à violência da visão mítica, é uma maravilha que as tentativas nessa direção dos mistérios e idéias dos grandes filósofos sempre buscaram colocar o homem e o mundo na esfera do divino: exatamente como o mito, eles possuíam, portanto, somente o divino. A autonomia do humano e do mundano desapareceu, tanto nos mistérios de deificação quanto nos conceitos de amor e desejo que permitiram aos filósofos atravessar o abismo; esses conceitos nunca iam do divino rumo ao homem e  às coisas do mundo, mas sempre na direção contrária. Isto é verdadeiro dos tanto dos gregos em sua busca amorosa da perfeição quanto dos Indianos em seu amor por Deus. Pareceria-lhes uma restrição a Deus, a Ele de que se orgulhavam, por terem-no erguido à Unidade que acumulava em sua fronte todas as qualidades nobres dos muitos deuses, se tivessem que rebaixá-lo novamente à paixão do amor. Pode ser que o homem o ame; mas seu amor, o amor de Deus pelo homem, poderia ser no máximo uma resposta ao amor do homem, a justa recompensa, e não a graça livre que estende sua bênção para além de todas as normas de justiça, não o poder divino original que faz escolhas ilimitadas, ou mesmo antecipa todo o amor humano e faz o cego ver e o surdo ouvir. E mesmo onde o homem acreditou ter atingido a mais elevada forma de amor, como naqueles círculos dos amigos indianos de Deus, onde se renunciava, por Deus, a todos os pertences, desejos e aspirações e até mesmo aos esforços ascéticos, esperando a graça divina em completa submissão – até aqui essa entrega era uma performance atingida pelo homem, e não a primeira dádiva de Deus. Em outras palavras, o Amor de Deus não se voltava em primeiro lugar para os corações endurecidos, mas para o homem perfeito. A doutrina da submissão à graça divina passava por um perigoso “mistério dos mistérios”; devia-se evitar, era ensinado, revelá-la àqueles que não cultuavam Deus, àqueles que murmuravam contra Ele, àqueles que não se mortificavam. Eram precisamente estes perdidos, estes duros de coração e incomunicáveis, isto é, os pecadores, que o amor de Deus deveria buscar, vindo de um Deus não somente digno de ser amado, mas que também ama, independente do amor humano; um Deus que, muito pelo contrário, desperta o amor do homem. Mas é claro que para isto, o Deus infinito deveria se tornar tão finitamente próximo ao homem, tão face a face, uma pessoa nomeada perante uma pessoa nomeada, a ponto de que nenhuma razão dos racionais, nem sabedoria dos sábios, poderia admiti-lo. Ao mesmo tempo, seria necessário que o abismo entre o humano e o divino, um abismo que indica precisamente a impossibilidade de se apagar os nomes próprios, fosse reconhecido e aceito profundamente e verdadeiramente como impossível de ser atravessado por todos os poderes ascéticos do homem e todos os poderes místicos do mundo. Isto era algo que a arrogância do asceta ou a auto-sublimação do místico jamais poderia reconhecer em seu desprezo pelo “som e fúria” dos nomes, fossem mundanos ou celestiais.

E,portanto, a essência deste Deus mítico permaneceu acessível à aspiração humana, mas somente ao preço para o homem de deixar de ser homem e para o mundo de deixar de ser mundo. As asas do desejo místico levaram o homem e o mundo ao fogo consumidor da deificação. Mas ao elevá-los ao divino, este desejo deixou para trás o que era humano e mundano , ao invés de deles precisar para ascender com um amor mais profundo. Da mesma forma, para os amigos de Deus na Índia, a ação é somente o que não deve ser mal, e nunca o que deve ser bom. E o divino nunca transborda para além de sua própria vida; a antiguidade  conseguiu chegar ao monismo de Deus, mas não foi além; o mundo e o homem devem se tornar a natureza de Deus e ser deificados, mas Deus não se rebaixa até eles; ele não se apresenta, não ama, e não deve amar. Ele guarda sua natureza para si. E permanece o que é: metafísico.”

Do livro “A Estrela da Redenção” de Franz Rosenzweig