Filosofia e Amor

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Filosofia e Amor

“Tudo é original e autêntico. Não se pode todavia ignorar que isto é mais precisamente uma promessa – pois Schelling não esquece a queda, depois de se preocupar em narrar historicamente o deslocamento do equilíbrio original. A virulência do pecado original, como visto, reside inteiramente na resistência à totalização. E sei muito bem que esta resistência é vã; que o ser decaído da Identidade permanecerá total apesar de si mesmo, ao menos ao fim de todas as suas variações: não importa… As coisas da natureza, se não podem chegar a se tornar inteiramente unilaterais, parecem chocantes, frívolas e desproporcionais; os detalhes emancipam-se do coro harmonioso onde elas figuram a título de Momento, adquirem um formato monstruoso e multiplicam por todos os lados as bizarrices. Daí a vocação dos filósofos. A filosofia é feita para ler nestas ruínas as sínteses completas, as arquiteturas monumentais que a primeira disparidade arruinou: tal como Winckelmann decifrava em um torso de Hércules a história inteira dos Doze Trabalhos. A filosofia é por assim dizer o antídoto do pecado: já que a Identidade se perturbou, os filósofos nos tornarão sensíveis as Potências, eles sabem o que pode ser salvo, buscam em todo lugar o indício significativo onde irão apontar a presença de Hércules. É uma arqueologia infatigável. Ora, a filosofia – isto é, o amor (pois esse é o seu verdadeiro nome) – é bem mais eficaz que o pecado, pois o pecado que divide vai contra a tendência natural do ser, enquanto a filosofia prolonga essa mesma tendência na alma e nas coisas; em nossa alma, por exemplo, ressoam todos os dramas do universo; mas eles são confusos e discordantes. Cabe à filosofia convertê-los em música. Nós, os filósofos, assemelhamo-nos um pouco aos alquimistas que decompõem os metais para isolar a essência das coisas; essa alquimia revela por toda parte as falsas ligas, as sínteses perversas: ela ajuda nossa consciência a curar suas feridas, mostra-nos o eu na natureza e a natureza no eu e busca enfim a pedra filosofal do espírito através da qual nossas vis abstrações se transmutarão no ouro puro da totalidade”
Último parágrafo da obra “A odisséia da consciência na última filosofia de Schelling” de Vladimir Jankélévitch. ‘