Descartes: pai da ideologia de gênero.

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Descartes: pai da ideologia de gênero.

É a polaridade cultura-natureza que delimita o campo especulativo da filosofia européia, mas essa polaridade implica um terceiro termo a respeito do qual aparece precisamente a oposição constitutiva: trata-se do sujeito cognitivo. Este terceiro termo é implicado duplamente pelo lado da cultura e pelo da natureza. Pelo lado da natureza o ponto é demonstrado amplamente e exemplarmente pela filosofia cartesiana. O fechamento ontológico da realidade cósmica que se encerra completamente na substância extensa (como se a extensão pudesse ser uma substância!), ou seja, que se identifica com a exterioridade como tal, suscita a posição, polarmente contraditória, de um sujeito pensante reduzido à pura interioridade face à pura exterioridade. Mas esta posição contraditória (o sujeito cognitivo ser simplesmente o que não é exterior) é exigida mais ou menos conscientemente por Descartes, devido à sua lógica do mecanicismo estrito. Pois há imensa dificuldade em se postular um objeto absoluto, um em-si puramente físico, puramente e exclusivamente “ali”. Deve-se dar então que o pensamento que afirma um tal em-si, diante do qual todo o resto é necessariamente relativo, pense a si mesmo como absoluto, sem relação alguma com aquilo que pensa, ou seja, ele se identifica à razão universal, radicalmente exterior à natureza. Descartes acredita assim salvar a “espiritualidade da alma”, e, de resto, este é o seu álibi, sua caução religiosa. Mas a que preço? É preciso então eliminar do sujeito cognitivo tudo aquilo que se liga ao mundo, tudo que nele resulta da situação de ser mundano, historicamente e geograficamente determinado. Ora, de onde vêm estes traços cósmicos que permanecem em nosso espírito e o conectam ao mundo em que vivemos? Essencialmente da educação, isto é, da cultura, pois uma é inseparável da outra. Como disse H.Gouhier, o que Descartes deseja expulsar de si mesmo é a criança, tudo aquilo que foi formado pela cultura recebida: “há um escândalo na condição humana: aos olhos de Platão, trata-se do fato de que a humanidade seja o exílio da alma; aos olhos de Descartes trata-se de que o homem começa por ser uma criança”. Trata-se de expulsar da alma adulta tudo que permanece da educação recebida; de realizar um tratamento de choque: “não um nascimento de um novo ser, mas um infanticídio”. É por isso que Descartes propõe na primeira parte do Discurso sobre o método o primeiro modelo de uma revolução cultural.
Trecho de “A Crise do Simbolismo Religioso” de Jean Borella.