Anotações sobre o conservadorismo

Um breve conto sobre o Anticristo Vladimir Soloviev
10 de outubro de 2016

Anotações sobre o conservadorismo

O que é chamado de conservadorismo, em seu sentido mais elevado, nasce como uma reação. Reação de quem e a que? Hoje, tomados pelo conceitualismo e abstratismo típicos do ensino escolar, temos dificuldade em imaginar o tremor e terror que a Revolução Francesa causou em toda a humanidade. Recrutamento obrigatório, guerra total, genocídios modernos, tudo isso foi fruto e obra da revolução salvadora, abrigados sob os slogans de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A sociedade francesa viu-se arrasada em poucos anos, enquanto todos os países da Europa tiveram de começar uma escalada armamentista para conter a ameaça de uma nação inteira em armas. Lembremos que a civilização medieval tinha transformado a guerra basicamente em um jogo da realeza e da nobreza. O povo era um espectador usualmente poupado e distante.

 Edmund Burke viveu o cataclismo. Quando jovem fora um típico intelectual racionalista, um cultor das luzes e dos círculos de discussões intelectuais à francesa. Mas fora reservado a ele escrever o primeiro epitáfio da Revolução: Reflexões sobre a Revolução em França. Neste clássico, Burke constata o absurdo de que alguns poucos intelectuais, munidos de alguns poucos conceitos abstratos, e principalmente o da implementação de uma ordem política completamente planejada e anti-histórica, pudessem ter sublevado a maior potência da Cristandade. Por mais imperfeita que fosse a ordem social então vigente, ela era fruto de séculos de pequenos ajustes orgânicos, baseada em princípios e vivências cristãs que todos reconheciam como tendo trazido um nível de civilização e de direitos individuais desconhecidos em qualquer outro tempo. E trocaram isso pelo que? Por ridículos festivais em nome da Deusa-Razão, seguidos das guilhotinas comandadas por rapazotes fanáticos e colunas de guerra que ameaçavam os recalcitrantes com esquadrões de extermínio. A sabedoria dos séculos fora jogada no lixo e substituída por uma razão de superfície, que imediatamente, ao não conseguir explicar a ordem social com alguns poucos conceitos quase que matemáticos, acreditava poder reconstruir a sociedade a partir desses mesmos conceitos.

Sabedoria e Organicidade, eis aí duas palavras irmãs e inerentes ao conservadorismo. Observamos a todo momento na natureza um cortejo de seres os mais variados para os quais não encontramos a princípio nenhuma explicação “racional”. Mas tanto a ciência mais avançada quanto a observação mais simples demonstram a presença de uma inteligência e uma sabedoria perfeita em cada um desses seres. E nada disso foi planejado por uma mente humana. Mas de onde vem a ilusão revolucionária de que o homem pode “criar” a parti do nada sociedades e constituições? Ouçamos as palavras de F.W.J Schelling:

“O homem não sacrifica sua liberdade natural ao adentrar o Estado. É precisamente o contrário: somente no Estado o homem encontra sua liberdade real e a possibilidade de seu exercício. Esse fato acaba por si só com o mito dos indivíduos livres e autônomos que se reúnem para pactuar um contrato social, o qual é completamente incapaz de explicar a fundação do Estado. No entanto, seus defensores apregoam ser útil pensar que o Estado poderia ter sido assim criado a partir da razão humana subjetiva. Mas desse truque resulta a possibilidade um Estado tirânico e ilimitado. Os que assim pensam, acreditam ser possível criar a partir do nada Estados e constituições, simplesmente com a convocação de assembléias constituintes. O caos legislativo e a balbúrdia infinita, que daí se originaram, fizeram com que muitos rejeitassem toda aparência de generalidade e razão, e tentassem afirmar os direitos absolutos da individualidade, buscando suprimir todas as diferenças históricas e até as supra-históricas, fundadas no mundo das Idéias, como a propriedade e a posse, sem as quais o homem não teria se elevado acima da vida puramente material. É a razão, não a falível razão individual, mas aquela que é a própria natureza, que perdura e domina toda existência acidental, é a razão assim compreendida que determina o conteúdo do Estado.”

 O que Schelling aponta neste parágrafo de uma compactação imensa? Que a ilusão construtivista nasce da crença iluminista naquilo que mais tarde Lukács chamaria de “razão instrumental” . Esta razão menor e apequenada é a mesma razão superficial que tendia a retratar toda religião e toda manifestação simbólica do homem como uma superstição que sempre remontaria a algum conteúdo pragmático. E em Schelling temos mais uma figura emblemática do conservadorismo: o colega de quarto e amigo de Hegel, que mais tarde seria convocado para lutar em Berlim contra o dragão revolucionário e panteísta do hegelianismo. Hegel havia reduzido o mundo e toda a criação a um mero pano de fundo para o intelecto humano: transformado em idéia, o mundo cederia lugar ao Deus-homem, Deus actualizado na mente de Hegel e no Estado alemão. Aparentemente conservadora, essa idéia só precisaria de um pequeno desvio do olhar para se transformar na concepção de que o homem-Deus tudo poderia criar e planejar. Schelling, seu antagonista eterno, dedicou o final de sua vida a demonstrar que tanto o paganismo quanto o Cristianismo não poderiam ser explicados por forças meramente humanas, assim como não o podem ser uma árvore e nosso próprio organismo. Ainda mais: paganismo e Cristianismo encaixam-se como chave e fechadura, pergunta e resposta. Mitologia e linguagem não podem ter sido criadas pelo homem, já que são condições da operação de sua própria consciência e não frutos dela.
 Um experimento da Universidade de Michigan revela ainda mais sobre essa razão superior a que o homem também tem acesso. Foram organizadas duas pilhas de cartas, uma contendo tanto valores muito positivos quanto muito negativos e outra contendo prêmios e punições menores, mas que resultavam em um ganho maior no fim das contas. Os participantes do teste tinham de ir retirando cartas do baralho até que conseguissem enunciar a estrutura racional do teste. O que se constatou é que já lá pela décima rodada os indivíduos começavam a agir como se soubessem que a segunda pilha valia mais a pena, mas só depois de 60 a 70 rodadas eram capazes de enunciar o motivo e a lógica do teste. Tudo se passa como se o homem participasse de uma razão que pensa com as próprias coisas e não com os conceitos do pensamento, e que essa razão seria muito mais rápida e perfeita que a outra puramente humana. Se isso é válido para um simples experimento social, o quanto não será para a formação das sociedades? Quanta sabedoria histórica acumulada não pode ser explicada por uma razão superficial?
 Observem a percepção humana e sua perfeição: como nós encaixamos no mundo desde criança e aprendemos intuitivamente sua ordem. Nem a soma de todas as ciências seria capaz de explicar um simples ato como esse. É a ilusão que acredita no contrário que o economista austríaco Friedrich Hayek chamava de “fatal conceit”, a crença fatal. A razão superficial aliada ao cientificismo conspira para a idéia de que o homem pode reinventar a sociedade e os costumes a partir da ciência e da razão subjetiva. Na alvorada dos tempos modernos(1500-1600), a física mecanicista e matemática sustentou a ilusão de que o verdadeiro mundo seria organizado em termos de mecanismos matemáticos. Como a mente humana navega perfeitamente bem em meio aos objetos matemáticos, foi um pulo daí para a idéia de que uma mente individual poderia apreender as leis matemáticas que também regem o comportamento humano e a sociedade e com elas reconstruir o mundo. Esta idéia é nada mais nada menos do que a origem e a síntese ideal do Estado moderno. O planejamento central dos iluminados deveria se substituir aos arranjos informais entre família, igreja e governo. As sociedades antes cresciam como árvores: agora crescerão como edifícios. A febre racionalista pode ser vista tanto nos Jardins de Versailles quanto na reorganização geométrica que a Revolução Francesa fez das regiões da França. Sem esta crença, podemos realmente acreditar que a sociedade mataria e morreria por sua própria escravização? Chegamos enfim a Bertrand de Jouvenel, que começa o seu clássico “Do Poder: uma História natural do seu crescimento” com a tese de que o principal ativo do Poder centralizador é o crédito a ele concedido. É a crescente concepção de uma soberania potencial e ideal, utilizada até pelos autores liberais para criticar os mandatários do presente, que serve de combustível para o Estado tudo devorar. Foi a crença no potencial do Estado para o bem estar social que criou a máquina de guerra totalitária da Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Um outro ponto brilhante de Jouvenel é a relação entre individualismo abstrato e centralização (ou socialismo no sentido moderno). Qualquer estudo histórico apontaria que o indivíduo isolado e independente é uma ficção digna das piores Utopias. Onde ele existiu, foi sempre um escravo ou um plebeu completamente marginalizado. A liberdade, no seu sentido mais poderoso, foi sempre o apanágio de indivíduos instalados em famílias e cidade-Estado poderosas. O tosco filme 300(de Esparta) não deixa de apresentar o contraste entre os poucos gregos vitoriosos e as multidões (escravizadas e atomizadas) do Império Persa.
 A fonte da liberdade histórica e real é a própria ordem natural das coisas, o crescimento de uma sociedade ao redor da família patriarcal monogâmica. Este desenvolvimento foi abortado em várias sociedades por todo tipo de tragédia e desvio, como a escravidão e a poligamia, mas resta o fato de que só conhecemos sociedades mais humanas e livres lá onde ele pode se desenrolar ao máximo. A Igreja explicitou este ideal no princípio da subsidiaridade, o qual afirma que nenhuma responsabilidade social que possa ser cumprida por um organismo social menor deve ser transferida para uma instância maior. Se a entidade familiar pode resolver um problema, não há porque se falar em envolvimento do Estado. Esta talvez seja uma das afirmações mais profundas do conservadorismo: que a liberdade e o florescimento humano dependem de uma ordem histórica de famílias poderosas e unidas ao redor de um bem comum. Lá onde falta este elo orgânico entre as famílias, abre-se o caminho para todo tipo de aventureiro que promete centralizar o poder para melhor redistribuir suas benesses com aqueles que muitas vezes não se encaixam ou são marginalizados por determinada ordem social. Mas quem destrói os poderes intermediários, também massacra o povo que era por eles liderado e representado.
 O crítico literário americano Lionel Trilling, em seu tempo considerado um “liberal”(esquerdista americano), contrastava os insights profundamente conservadores da grande literatura do século 19 com o que chamava de imaginação social do século 20. Para ele, o segredo dos grandes romancistas do século 19 era mostrar a tragédia do homem das antigas cidades européias medievais que repentinamente se vê lançado nas metrópoles modernas como um zé-ninguém, só mais um número desconhecido por tudo e todos. A salvação estaria na reflexão que pudesse restaurar na sociedade o amor pela família extensa e pelas pequenas delicadezas da vida social no ambiente alienador e hostil dos grandes agrupamentos modernos. A imaginação social se oporia a isso com o mito de que um Estado benevolente poderia recriar o vínculo orgânico com grandes programas sociais. Ela resultou numa literatura de protesto superficial que acreditava ser sua única função denunciar os males sociais e apontar as soluções ao governo. Segundo Trilling, o romancista Henry James teria se oposto a essa tolice em seu romance “A Princesa Casimerina”. Nesse livro, um típico militante esquerdista da época se vê obrigado a passar um tempo em Veneza para tentar obter fundos da princesa simpática às causas sociais. Ali, o homem que queria destruir todas as aristocracias e costumes passados passa a conviver com seus antagonistas imaginários. Um dia, deitado em uma velha construção veneziana a ler Shakespeare e a observar a paisagem e os detalhes das esculturas e construções, ele viu a luz: nenhuma reforma social renovadora justificaria a destruição do patrimônio histórico representado por aquela aristocracia local. Aquelas famílias privilegiadas representavam a humanidade e seus anseios mais nobres, séculos de mecenato e conversas e sentimentos depurados pela própria vida e por aquela razão maior que sempre conhecemos como sabedoria. Que burocracia ou classe iluminada de justiceiros sociais poderia simular ou recriar essa riqueza?