A praga do cientificismo – Wolfgang Smith

Curso: As principais correntes do marxismo
19 de dezembro de 2017

A praga do cientificismo – Wolfgang Smith

A praga do cientificismo

Autor: Wolfgang Smith

Tradução: Murilo Resende Ferreira

Nada parece mais certo e digno de autoridade para a mentalidade contemporânea do que as descobertas da física, astronomia, química, e, mais recentemente, da biologia molecular. Estas são as ciências “exatas” da presente época, que, por meios empíricos, de um alcance e precisão que estarrecem a imaginação, colocaram-nos em contato com realidades fundamentais que não poderiam sequer ser concebidas nos tempos passados. Ademais, este conjunto de ciências foi em certo sentido validada perante os olhos de todos, através dos milagres tecnológicos que agora nos cercam por todos os lados; como, então, alguém pode duvidar – e muito menos negar – de suas descobertas? Em verdade, não se pode; as partículas e campos quânticos, galáxias e quasares, moléculas e o código genético – todos são fato inegáveis, que devem ser levados em conta daqui por diante.

Devemos lembrar, no entanto, que os fatos e sua interpretação não são a mesma coisa. E já que os fatos sempre vêm associados subjetivamente com uma interpretação de algum tipo,  a ciência sempre apresenta dois fatores díspares: descobertas positivas, por um lado, e uma filosofia subjacente em cujos termos a formulação e a exposição dessas descobertas são encaixadas. Em sua realidade concreta a ciência nunca é o puro empreendimento empírico que geralmente é considerada, o que redunda em dizer que os pressupostos epistemológicos e ontológicos têm inevitavelmente um papel essencial. E, para piorar, estes vários artigos de crença filosófica raramente ou nunca são examinados ou submetidos a um escrutínio crítico pela comunidade científica. São as idéias fundantes absorvidas, como que por osmose, no curso de uma educação científica; dizem respeito, podemos quase dizer, ao inconsciente científico. E quando acontece de algum destes dogmas filosóficos aparecer à luz do dia como tema de discurso, a resposta típica por parte dos cientistas é apontar imediatamente, como critério de validação, para o sucesso do empreendimento científico: “Funciona!”.  Na realidade, entretanto, uma crença filosófica jamais foi validada por uma descoberta empírica; o fato é que a verificação e a falsificação por meios empíricos aplicam-se às proposições científicas e não às filosóficas. A separação entre esses dois domínios, no entanto, é raramente tentada pelos cientistas; somente em tempos de crise extrema, quando as fundações de uma ciência parecem desmoronar, encontramos um pensamento sério sobre questões desse tipo; é preciso um Einstein ou um Heisenberg para descender ao nível dos fundamentos, onde os axiomas filosóficos começam a aparecer. O que o vulgo absorve destes fundadores, além disso, diz respeito principalmente ao aspecto técnico do empreendimento: as equações da relatividade ou o formalismo da mecânica de matrizes são aceitas, enquanto o lado filosófico da moeda é quase que completamente ignorado. É seguro dizer que os homens e mulheres envolvidos do no dia a dia da pesquisa científica tendem a não ser muito interessado em sutilezas filosóficas; e então inclinam-se a reter os axiomas filosóficos a que se acostumaram durante os anos, e que só poderiam ser reconhecidos como tal  através de um questionamento sério e concentrado. Por isso, nas mentes dos cientistas modernos,  ciência de qualidade e filosofia inferior coexistem e estão de fato intimamente entrelaçadas; como John Haught da Universidade  de Georgetown apontou recentemente: “Alguns dos cientistas mais proeminentes são literalmente incapazes de separar a ciência de sua metafísica materialista”.

Tendo dito isso, posso enunciar minha tese primária: afirmo que em virtude da confusão mencionada os cientistas promulgaram opiniões filosóficas do tipo mais dúbio como verdades científicas, e em nome da ciência lançaram sobre um público crédulo e maravilhado uma visão de mundo rasa para a qual não há nem um grão de suporte científico real. Afirmo que os cientistas como uma classe, tendo ganho a confiança e a admiração da sociedade através da maravilhas tecnológicas que construíram, usurparam sua autoridade predispondo o público contras as elevadas verdades da religião. Não estou sugerindo, certamente, que foi um engano consciente, mas antes afirmo que eles mesmos foram enganados em assuntos pertinentes à filosofia, metafísica, e religião. Permanece, entretanto, o fato de que estes “guias cegos” exercem uma influência inestimável sobre a educação e a crença pública, com consequências desastrosas para o bem estar humano, tanto aqui quanto na eternidade.

Aplicarei o termo “cientificismo” para designar opiniões filosóficas que se mascaram como verdades científicas. Deixe-me dar dois exemplos. O primeiro é o dogma do mecanismo universal, ou aquilo que poder ser igualmente chamado de axioma do determinismo físico. A idéia é simples: o dogma afirma que o universo externo consiste de matéria cujo movimento é determinado pela interação de suas partes. Dada a configuração inicial ou o estado dessa matéria, e tendo constatado as leis que determinam o efeito dessas interações sobre o movimento resultante, supostamente pode-se em tese calcular a evolução futura do universo, até o último detalhe. O cosmos é então concebido como um tipo de relógio gigante, em que partes interagem com partes para determinar o movimento do todo. Sabemos que esta idéia começou a tomar forma no século dezesseis e que teve um papel decisivo na evolução da ciência moderna. Já no tempo do Iluminismo era considerada, de fato, quase universalmente como uma verdade científica estabelecida. Consequentemente, Hermann Von Helmhotlz, um dos maiores cientistas do século 19, podia dizer com uma certeza serena: “ O objetivo final de toda ciência natura é reduzir a si mesma à mecânica(sich in Mechanik aufzulosen).” Mas com o advento da teoria quântica, a imagem se alterou; pois a nova física não é compatível com a premissa mecanicista. No entanto, apesar do indeterminismo quântico, não são poucos os cientistas eminentes que continuam a defender o dogma mecanicista. O próprio Albert Einstein , como sabemos, longe de admitir que as descobertas da mecânica quântica destronaram o postulado clássico, argumentava precisamente na direção oposta: é o princípio do determinismo que invalidaria a mecânica quântica como uma teoria fundamental. Isto ilustra claramente o caráter filosófico e até mesmo a priori do dogma em questão, e o fato de que proposições desse tipo não podem ser verificadas ou falsificadas por descobertas empíricas. Este fato, no entanto, permanece geralmente não reconhecido, com o resultado de que o postulado do mecanismo universal reteve até hoje seus status como artigo capital do cientificismo.

Meu segundo exemplo pertence a um estrato mais fundamental do pensamento filosófico e é consequentemente ainda mais abrangente em suas implicações: chamá-lo-ei “reducionismo físico” (por razões que ficarão mais claras). Esta tese depende de uma suposição epistemológica, um postulado idealista, podemos dizer, que afirma que o ato da percepção sensível termina, não em um objeto externo como comumente acreditamos, mas em um tipo de representação subjetiva. De acordo com esta visão, a maçã vermelha que percebemos existe de alguma forma em nossa mente ou consciência; é uma imagem subjetiva, uma fantasia que a humanidade confundiu com um objeto externo por todo esse tempo. Assim pensava René Descartes, a quem devemos as fundações filosóficas da ciência moderna. Descartes buscou corrigir o que acreditava ser as noções erradas da humanidade a respeito das entidades perceptíveis, distinguindo entre o objeto externo, que ele denominou res extensa, e sua representação subjetiva existente na mente, a chamada res cogitans. O que antes fora concebido como um único objeto ( e que ainda o é na vida diária) passou a ser dividido então em dois; é como Whitehead colocou: “ Haveriam então duas naturezas, uma é a conjectura e a outra o sonho”. Deve-se notar que esta diferenciação Cartesiana entre “conjectura” e “sonho” se choca não somente como  as intuições  comuns da humanidade, mas também com às grandes tradições filosóficas,  especialmente  o tomismo, diante do qual a oposição se torna diametral. Ora, é esta questionável doutrina Cartesiana – a que Whitehead chama de “bifurcação” – que serviu desde o princípio de sustentáculo fundamental da física, ou melhor dito, da cosmovisão cientificista em cujos termos habitualmente interpretamos os resultados da física. E mais uma vez percebemos que dois fatores díspares – os fatos operacionais da física e a sua interpretação costumeira –  foram de fato identificados, o que redunda em dizer que o dogma da bifurcação realmente funciona como uma crença cientificista.

Gostaria de enfatizar que além da bifurcação contradizer as mais básicas intuições humanas  assim como as mais veneráveis tradições filosóficas,  não há também sequer um grão de evidência empírica para sustentar essa posição heterodoxa. Nem pode existir, como se segue do fato de que a física pode ser perfeitamente interpretada em uma base não-bifurcacionista, como mostrei em uma monografia recente.  Ademais, quando a física é interpretada em termos não bifurcacionistas, os assim chamados paradoxos quânticos – que levaram os físicos a inventar ontologias as mais bizarras – desaparecem por si mesmos. Parece que a física quântica, portanto, alinhou-se implicitamente à cosmovisão pré-Cartesiana.

Resta explicar porque me referi à bifurcação como um “reducionismo físico.”A razão torna-se clara no momento em que retornamos ao alicerce da Weltanschauung perene. A maçã vermelha pertence uma vez mais ao mundo exterior; ela é um objeto corpóreo, ou seja, pode ser percebida. A maçã “molecular” com que o físico se preocupa, por outro lado, é desprovida de qualidades sensíveis, e é consequentemente imperceptível. Ela constitui o que chamo de objeto físico, em distinção ao corpóreo. De um ponto de vista bifurcacionista, no entanto, o objeto físico é tudo que existe no mundo exterior. O corpóreo, portanto, é concebido efetivamente como sendo “nada mais” do que o físico. A maçã vermelha – que , de um ponto de vista ortodoxo, existe!– é então “reduzida”  ao físico: é identificada com a maçã “molecular”, como concebida pelo físico. O dogma da bifurcação implica, portanto, naquilo que chamei de “reducionismo físico”; e o contrário, pode-se ter certeza, é igualmente evidente.

A tese cartesiana, nestas duas formas, tem sido pressuposta por séculos sem questionamento algum por parte dos cientistas e do público educado.  Criou raízes na mente científica até o ponto em que mesmo as anomalias da física quântica falharam em despertar suspeitas. Um filósofo da ciência admitiu recentemente em privado: “Aqueles que trabalham na esfera da física acham quase impossível eliminar o bifurcacionismo implícito em seu trabalho”.  Esta aceitação habitual e acrítica da tese Cartesiana por “aqueles que trabalham na esfera da física” obscurece efetivamente o seu status filosófico; e o dogma torna-se ciência por associação, como em toda crença cientificista.

Pode-se argumentar que a bifurcação – ou, equivalentemente, o reducionismo físico- constitui de fato a mais básica crença científica contemporânea, o dogma que todas as outras crenças cientificistas pressupõem implicitamente. Tome, por exemplo, a idéia do mecanismo universal: ela não se sustenta no bifurcacionismo? Em uma passagem notável, amplamente merecedora de citação, o próprio Descartes admite isto:

“Nós podemos facilmente conceber como o movimento de um corpo pode ser causado pelo de outro e diversificado pelo tamanho, figura e arranjo de suas partes, mas somos completamente incapazes de conceber como essas coisas podem produzir algo de uma natureza inteiramente diferentes delas mesmas, como por exemplo, aquelas formas substanciais e qualidades reais que muitos filósofos supõem estarem nos corpos.”

Os filósofos aludidos são, é claro, os Escolásticos, a quem Descartes opõe-se radicalmente. O que o gênio francês nos diz – com claridade admirável – é que a idéia do mecanismo universal só se torna concebível no momento em que o universo é reduzido ao status de matéria quantificável.  E, finalmente, não é esta a razão pela qual Galileu e Descartes acharam adequado banir “aquelas formas substanciais e qualidades reais” do mundo exterior? Não foi o postulado bifurcacionista introduzido precisamente para tornar pensável uma física “totalista” baseada em princípios mecânicos?

Os dois exemplos podem ser suficientes para introduzir o fenômeno geral que eu denominei cientificismo. É quase desnecessário apontar, ademais, que se a física, a mais exata das ciências naturais, está associada com noções cientificistas – e ilusórias de um ponto de vista tradicional -, o que podemos esperar no caso de disciplinas menos rigorosas, como a biologia evolucionista, a antropologia física e a psicologia, sem falar nas chamadas ciências sociais? O fato negligenciado é que a ciência em sua concretude nos dá tanto a verdade quanto o erro: não só iluminação, mas também obscuridade.  Pode-se argumentar que em relação ao público geral é o segundo efeito que predomina; as verdades das ciências exatas, afinal, são acessadas principalmente pelo especialista, pelo homem cientificamente proficiente. Isto se dá especialmente no caso da física fundamental; quando um fato da teoria quântica, por exemplo, se torna popular, o que permanece é quase sempre uma noção cientificista. Pode-se colocar o problema da seguinte forma: assim que a ciência evolui, suas intuições reais tornam-se cada vez abstratas e matemáticas e, portanto, desnudadas de imagens sensíveis; essas intuições tornam-se então um tipo de conhecimento esotérico, a que somente os “iniciados” tem acesso. Além disso, o que é validado por descobertas empíricas, e também, em certo sentido, pelos milagres da tecnologia, é precisamente o núcleo de intuição esotérica, e não a casca exterior de crenças cientificistas que a maior parte do público confunde com uma iluminação.

Eu gostaria de considerar agora as implicações destes fatos – deste fenômeno cultural – para a religião e a vida espiritual. Como já se deve ter notado, percebo o impacto do cientificismo no domínio religioso como adverso ao extremo. Devo adicionar que o problema foi grandemente exacerbado pelo fato de que teólogos e pastores estarem normalmente mal equipados para lidar com questões desse tipo, e muitas vezes terem sido também seduzidos pelas pretensões cientificistas.

O que importa, dirão alguns; e se estivermos talvez equivocados sobre a natureza da causalidade, ou sobre o sentido final da percepção sensível, ou mesmo sobre a tão debatida questão da evolução –, mas permanecermos do lado da verdade em matéria religiosa? Eu diria que a questão não é tão simples. Não devemos esquecer que a religião – enquanto não tiver degenerado em uma convenção social ou mera sentimentalidade – exige o homem inteiro ; a santidade e a inteireza são inseparáveis. O “primeiro e mais elevado” mandamento não nos manda  “Amarás o Senhor teu Deus de todo o seu coração, e de toda a sua alma, e de todo o seu pensamento”? O que pensamos sobre o mundo – nossa Weltanschauung –  não pode ser legitimamente excluída do domínio da religião. Como São Tomás de Aquino escreve na Suma contra os Gentios ( Livro II , cap. 3): “ É absolutamente falso sustentar, com referência às verdades de nossa fé,  que aquilo que acreditamos a respeito da criação não tem consequência alguma, desde que tenhamos uma concepção exata acerca de Deus; porque um erro a respeito da natureza da criação sempre faz nascer uma falsa idéia de Deus”. Eu acrescentaria que vejo a tendência contemporânea de acomodar os ensinamentos do Cristianismo às ditas verdades da ciência como uma confirmação contundente deste princípio tomista; um caso, quase que invariavelmente, de erros cientificistas dando luz a idéias teológicas equivocadas.

Em uma palavra, o que pensamos sobre o universo realmente importa para nossa vida religiosa e espiritual. E, além disso, somos, com a concessão devida à “ignorância invencível”, responsáveis pelas opiniões que temos nesse domínio aparentemente secular. “De todo o seu pensamento”: essas quatro palavras devem bastar para informar deste fato.

Eu irei até o ponto de argumentar que a religião desencaminha-se no momento em que renuncia a seus justos direitos no domínio natural que hoje é ocupado pela ciência. Acredito que a crise contemporânea da fé e a descristianização em andamento da sociedade Ocidental estão intimamente ligadas ao fato de que por séculos o mundo material foi deixado à mercê dos cientistas. Isto já foi dito muitas vezes antes ( mas nem perto do necessário!).Theodore Roszak, por exemplo, colocou excepcionalmente bem: “ A ciência é nossa religião,” ele observou, “ porque não podemos, a maioria de nós, ver além dela com alguma convicção”. E podemos acrescentar que talvez somente aqueles que têm ao menos um vestígio de religião autêntica possuem alguma chance de “ver além dela com alguma convicção”. O nome de Oskar Milosz(1877-1939) também vem à mente, um escritor europeu que tinha o seguinte a dizer: “A menos que os conceitos de um homem sobre o universo físico  estejam de acordo com a realidade, sua vida espiritual será cortada na raiz, com consequências devastadoras para cada aspecto de sua vida”. Não poderia ser melhor dito! No que diz respeito às implicações da cosmovisão cientificista para a vida da Igreja, permitam-me citar um livro recente do filósofo francês Jean Borella: “A verdade é que a Igreja Católica foi confrontada pelo problema mais formidável que uma religião pode encontrar: a desaparição cientificista do universo de formas simbólicas que permitem que ela se expresse e se manifeste, isto é, que permite sua existência. E ele continua dizendo: “Esta destruição foi operada pela física galilaica, não porque ela , como é geralmente reivindicado,  privou o homem de sua posição central – que era para São Tomás de Aquino a mais baixa e menos nobre cosmologicamente – mas por ter reduzido os corpos, a substância material, ao puramente geométrico, tornando de um só golpe cientificamente impossível ( ou carente de significado) que o mundo posso servir como um meio de manifestação de Deus. A capacidade teofânica do mundo é negada.” Sejamos claros sobre isto: Borella está apontando o dedo exatamente para aquilo que chamei de reducionismo físico, “ le probléme le plus redoubtable qu’une religion puisse recontrer,” ele o chama. O que ele denomina uma “redução ao puramente geométrico” corresponde precisamente àquilo que chamo de redução do corpóreo ao físico: é essa alegação cientificista que oblitera “ a capacidade teofânica do mundo”.

Não se deve entender, como alguns podem pensar, as “formas simbólicas” a que Borella  se refere como imagens subjetivas ou idéias que nos dias passados os homens projetaram sobre o universo externo, até que a ciência nos informasse da verdade. O exato oposto é de fato o caso: as “formas” em questão são objetivamente reais e realmente essenciais ao universo. Podemos concebê-las como formas no sentido Aristotélico e Escolástico, ou Platonicamente, como arquétipos eternos refletidos no plano da existência corpórea. Em ambos os casos elas constituem a própria essência do ser corpóreo. Removam essas “formas simbólicas,” e o universo deixa de existir; pois são precisamente essas formas que aferram o cosmos a Deus.

É desnecessário apontar que a ciência não destruiu na realidade essas formas ou causou sua desaparição; no entanto, a negação cientificista do ser corpóreo implica numa negação das formas substanciais ou essências que constituem a ordem do ser, e das qualidades sensíveis através das quais essas formas ou essências manifestam-se ao homem. A mente cientificisticamente preparada se tornou, portanto, crescentemente insensível ao que Borella denomina “o universo das formas simbólicas,” , até o ponto em que o universo se tornou para  quase invisível para ela. É nesse sentido que a “capacidade teofânica do mundo” foi diminuída a um grau sem precedentes.

As consequências desta diminuição, no entanto, não podem deixar de ser trágicas em extremo. O homem cientificista destruiu a própria base da vida espiritual em sua negação das essências. Como Borella aponta, ele obliterou o domínio “ que permite à Igreja se expressar e manifestar,” e portanto “ permite que ela exista”. A refutação do cientificismo não é, portanto, um assunto opcional para a Igreja, de que ela possa abdicar sem se destruir; é antes de tudo um assunto de necessidade urgente, uma questão de sobrevivência em última instância.

Será bom, finalmente, refletir sobre o que São Paulo tem a dizer a respeito da “capacidade teofânica do mundo” em sua carta aos Romanos. “Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, “ ele declara , “ tanto o Seu poder como a Sua divindade, se estendem e claramente podem ser vistas pelas coisas que foram  criadas.”. Ao que ele adiciona: “Para que eles não tenham desculpa: porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu“ (Rom. 1:20-22). Dificilmente preciso apontar a relevância marcante destas palavras para tudo que discutimos. As “coisas que foram criadas” são sem dúvida naturezas corpóreas, os objetos que o homem pode perceber; e podemos dizer sobre “as suas coisas invisíveis”: não são elas precisamente as essências eternas, idéias ou arquétipos? Enquanto o coração do homem não estiver “obscurecido”, a percepção sensorial das “coisas que foram criadas” irá despertar nele uma percepção intelectual – uma “reminiscência”, como Platão diz – das coisas eternas que elas refletem ou encarnam. São Paulo alude a um tempo ou estado onde o homem “conhecia Deus”, uma referência, antes de tudo, à condição de Adão antes da queda, quando a natureza humana ainda não estava corrompida pelo pecado original. É preciso perceber, no entanto, que a queda de Adão foi repetida em uma escala menor em todas as eras, em uma série interminável de “traições”, grandes e pequenas. Até mesmo hoje, nesse estágio tardio da história, somos, cada um de nós, dotados de  certo “conhecimento de Deus” ao qual podemos responder livremente de várias maneiras. E é precisamente por isto que  também “não temos desculpa” e, pelo menos até certo grau, somos responsáveis pelas opiniões que mantemos sobre o cosmos. Todos percebem o universo de acordo com seu estado espiritual: os “puros de coração” percebem-no precisamente como uma teofania; e para o resto de nós, cujos “corações tolos estão obscurecidos”, a capacidade teofânica do universo é reduzida em proporção a esse obscurecimento.

Eu gostaria de enfatizar que a correspondência entre nosso estado espiritual e nossa Weltanschauung se aplica nas duas direções, o que é dizer que não só o nosso estado espiritual afeta o modo como vemos o mundo externo, mas inversamente, nossas visões referentes ao universo reagem invariavelmente sobre esse estado. Este é de fato o meu ponto central: a Cosmologia importa, ela tem um impacto decisivo sobre nossa condição espiritual. Até mesmo o que pensamos sobre o universo puramente físico se mostra crucial; pois realmente, “a menos que os conceitos de um homem sobre o universo físico estejam de acordo com a realidade, sua vida espiritual será cortada na raiz….”

Isto nos traz finalmente à questão pastoral: o que pode ser feito pastoralmente para contrabalancear a influência cientificista? O problema principal, claramente, é informar os próprios sacerdotes: alertá-los, antes de tudo, para o fato de que existe uma distinção crucial a ser feita entre ciência e cientificismo, e então para o fato de que o cientificismo é um antagonista de nosso bem-estar espiritual. Isto, porém, não será fácil de transmitir, pois ofende a tendência prevalente, tanto na sociedade civil como dentro da Igreja. Eu suspeito que é somente por um ato de graça que qualquer um de nós é capaz de reunir o discernimento, e mesmo a pura audácia, de descartar a Weltanschauung cientificista e recuperar uma cosmovisão cristã; e essa tarefa, esse imperativo, é profundamente espiritual. Ela deve se realizada, então, não só pela leitura de livros, ou através de um processo de raciocínio, mas acima de tudo pela fé e oração. O dito credo ut intelligam ainda se aplica a nós, e talvez ainda mais urgentemente do que nos tempos comparativamente inocentes de Agostinho e Anselmo. É necessário que sejamos tocados e abrasados pelo Espírito Santo, o Espírito da verdade, que é quem “vós guiará em toda a verdade” (João 16:13). Em nossa batalha para transcender a perspectiva cientificista, não estamos lidando, ademais, simplesmente com um sistema de crenças de invenção humana, mas com algo muito mais formidável; pois aqui também, no fim das contas, “não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniquidade nas regiões celestes” (Efésios 6:12). Como poderia ser diferente quando é “a capacidade teofânica do mundo” que está em jogo: a própria realidade “que permite à Igreja se expressar e manifestar, isto é, que permite que ela exista”. Se o cosmos fosse realmente como o cientificismo afirmar ser, nossa fé Católica seria um escárnio, e nossa liturgia sagrada – a fonte da própria Igreja – uma charada vazia. Este fato não pode ser ignorado impunemente.